domingo, 5 de setembro de 2010

A doçura das amarguras...



O que dizer das coisas simples? Melhor seria não dizer nada, apenas enxergá-las, escutá-las, e ter amor por elas. Vou tentar então falar bem pouquinho, e bem baixinho, “não conte seus sonhos para ninguém”, “se quiser pode sussurrá-los em meu ouvido”...
Talvez não exista lugar melhor para encontrar a simplicidade do que no espírito de uma criança. Mas não em qualquer criança. Que tal uma criança camponesa, tímida, que vive com seus pais nas montanhas da Turquia? Longe de ser uma busca pelo exótico, essa pergunta se relaciona ao fato de que não apenas na criança (é verdade), mas em tudo encontramos uma simbiose quase que (senão) total da simplicidade, e da beleza da vida retratada nesse filme; por mais que existam (e como!) dificuldades e sofrimentos.
No entanto, é como se esses aspectos encontrassem seu equilíbrio em seus opostos, como no título do filme; título esse o qual não é preciso saber turco para aprender o que significa ao longo do filme. Encontro feliz com o título (tirando a moda boba de recolocá-lo ao final da exibição). O filme aparentemente foca as relações de entendimento e cumplicidade de um menino (de uns seis anos) com seu pai, mas vai muito além disso. O que salta aos olhos é a perfeita sintonia de seus personagens com a natureza da qual são, e fazem parte de fato; a dureza de uma vida que apesar das auguras tem muito mais a doçura do mel conseguido a tão duras penas.
Há tempos eu não via um filme com tamanha capacidade de relacionar sua linguagem com o seu objeto, pelo ritmo imposto ao filme, e com o perdão pelo uso do jargão, pela beleza rara da fotografia e de sua montagem (favorecida pelas belíssimas paisagens retratadas, porém escolhidas) que nos permite adentrar melhor, ou ao menos vislumbrar a essência do ser humano no que ela pode ter de melhor, em sua relação de amor e respeito com a (sua própria) natureza. Eu poderia fazer aqui algumas referências, e apesar de ter prometido falar pouco e baixinho, lá vão elas discretamente. Como admirador do trabalho do cineasta alemão Werner Herzog, não pude deixar de notar uma inspiração que me parece direta com esse que é um dos mais importantes poetas do nosso tempo, pela relação que ele consegue estabelecer com a natureza em seu estado mais puro, direto, lúcido. Natureza essa que inclui o homem, e que é pura (a visão de Herzog) porque tenta explorar a fronteira que a humanidade traçou entre ela a vida dita selvagem, mostrando e desvelando, o que teimamos as vezes em não ver, ou que fingimos não ver, e que se encontra as vezes onde menos esperamos, dentro de nós: somos muito mais selvagens do que na maioria das vezes podemos supor. Mas felizmente as coisas não são apenas assim, selvagens.
A solidão do menino é também, ou muito mais a solidão de todos nós ao não buscarmos por natureza o encontro profundo com nós mesmos. O menino tem esse confronto diretamente , e por isso parece ver a beleza de certas coisas como poucos. Ele quase não fala. Um dia o pai lhe diz, “sabe de uma coisa?”, “aquele urso sem calda que estava perto das colméias está com filhotes”, ao que o menino responde, “é mesmo!?”, “você viu os filhotes?”, ao ouvir o pai dizer que sim o menino pergunta, “quando eu vou poder vê-los?”, no sábado, diz o pai. Creio que as reações do menino vão além da inocência da infância, e se relacionam com um lucidez rara mesmo para os adultos; posso estar exagerando, mas não creio nisso. O menino sabe se relacionar com a natureza,como por exemplo com as flores das quais as abelhas farão o mel de seu sustento. Mas nem tudo é só beleza em estado puro. Infelizmente é o professor das crianças que nos mostra isso mais nitidamente – e demorei para perceber isso. Os coleguinhas de escola do menino parecem estar mais hipnotizados pelo jogo promovido pelo professor que no mínimo não colabora muito na busca do menino; um tipo de ortodoxia que talvez represente o que aquela sociedade tivesse de mais castrador. Ele não sai para o recreio, e aparentemente está só, mas as crianças que correm do lado de fora talvez também estejam, até mais do que ele, provavelmente estão.
O pai talvez tivesse sido como o menino, e na sua ausência, na dor da perda de sua referência afetiva maior o menino parece se entregar de vez à sua busca que o leva diretamente para dentro do meio no qual vive, uma integração física inclusive, como sugerem as últimas imagens do filme. Ele parece deslocado, mas não está. É ele quem nos mostra grande parte, senão toda a beleza da vida da comunidade do qual faz parte, na qual vive, mas poucos parecem aptos a dar conta de sua capacidade de observação, e que nos permite chegar tão perto da essência das coisas – ao menos indicando a direção de um caminho possível para tanto. Seu pai era a via principal, seu guia, e a escuridão que ele se vê (mas que não parece tirá-lo do caminho, porque ele é o que é) é um sintoma drástico e preocupante da raridade de sua lucidez.
Quero rever o filme, com certeza, e conhecer outras coisas de seu diretor Semih Kaplanoglu; ainda mais agora, que acabo de ver na internet, que Mel (o filme em questão aqui, que está nos cinemas brasileiros com o título Um doce olhar) faz parte de uma trilogia, cujos outros títulos são Leite e Ovo.

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